emperrada

emperrada. como mula de velhas juntas, de pernas tortas, de muitas manias, estou emperrada. não consigo escrever nada, muito menos falar ao telefone. ir para lugares parece algo dificílimo de se fazer. estou tão emperrada mentalmente que meu corpo resolveu emperrar-se também, como seria óbvio. dói-me o joelho e o ombro. minha coluna estala. sobra-me peso sobre as pernas, as canelas, os tornozelos. adoro esta palavra, tornozelo. seguindo, a única coisa que consigo fazer são listas. faço listas das coisas que tenho que fazer. coisas bestas, mas coisas que não posso esquecer, ou se esqueço elas ficam se amontoando, e ficam me perturbando, então coloco na lista, como um paliativo. e as listas vão crescendo. e eu, emperrada. como nunca antes neste país. preciso levar a sandália da filha para consertar (estão-se acabando os calçados dela, ela cresce muito rápido e nosso cachorro está terrível). preciso comprar um chinelinho novo para a filha. preciso organizar a sua festa de aniversário. preciso fazer o texto do novo folder, novo conceito. preciso redigir textos para o novo sáite, muito conteúdo. preciso chamar o homem pra consertar o som. preciso chamar o homem para consertar o portão da garagem. preciso continuar as massagens, retomar o pilates e começar um tal de rpg. preciso colocar minha coluna no lugar. preciso marcar dentista. preciso buscar mais perguntas para o quizz do bar. preciso organizar fotos, arquivos e papelada. preciso desemperrar. por hora, vou tomar um chá e dar um beijo em minha filha.
Escrito por clara às 16h39
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Ei-la, a Leila

Quem nunca morou em casa não se acostuma fácil com insetos. Em casa, principalmente com quintal e mato por perto, há de ruma: voadores, rasteiros, simpáticos, horripilantes. Há de um tudo. Em São Paulo, num apartamento desses altos, por exemplo, a pessoa jamais faz contato algum com insetos. Nada. Nem notícia. Nada de formigas, moscas, mosquitos, potós, lesmas e seus caracóis, aos montes, borboletas pequenas ou grandes, lindas ou assustadoras, calangos, lagartixas (as bribas), centopéias, mariposas, baratas de jardim... Mas as outras baratas (argh), aquelas mais nojentas, essas talvez apareçam, aliás elas geralmente acabam aparecendo, depende apenas de fatores como esgoto, encanamento... Mas o fato é que morar em casa abre essas inúmeras possibilidades de convivência com as mais variadas formas de vida. E temos que aprender a conviver, é o jeito. Há algumas semanas uma pequeníssima e simpática pererequinha habita o meu closet. Ela é já quase parte da família, e fica lá pelo alto, alimentando-se com toda sorte de minúsculas muriçocas desavisadas. Às vezes desce e faz uma visita ao banheiro, talvez para matar a sede, tomar um banhozinho ou só para xeretar mesmo. Eu ainda não a batizei, mas estou a ponto de. Estou pensando em chamá-la de Odete. Não me perguntem porquê. Minha filha já brincou de dar nomes às formiguinhas que rapidamente se juntam ao nosso menor descuido, como esquecer um copo de suco na mesa de trabalho ao lado do computador, por exemplo. Teve um dia que ela gritou, quando eu recolhia um potinho de iogurte de sua frente: “- Espera, mamãe, a Naná está aí, e a Didi ainda não terminou o lanche!” Teve uma vez em que eu estava colocando a minha filha para dormir e ela tentou estreitar laços com uma muriçoca que se chegou perto de sua cama: agitou os braços e falou: “boa noite, Leila!”. No mesmo instante eu assassinei friamente a Leila com uma bofetada em pleno voo, diante da minha própria filha, e disse: barata e muriçoca, não. O resto pode.
Escrito por clara às 11h01
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