Oba. Minha alma é imoral
Com que prazer descobri que tenho uma Alma Imoral. Aliás, corrijo-me:"tenho" não, "sou". E com que felicidade ouvi todas aquelas palavras sábias, inteligentes, sensíveis, espirituais. E com que alegria me vi ali, naquela platéia, tão desnudada quanto a atriz, vendo revelar-se diante de meus olhos toda a complexidade de ser humano que a gente mesminho tenta simplificar, ou toda simplicidade de ser humano que a gente mesminho tenta complicar. Puta merda, como foi bacana sentar ali e ouvir e viajar nas palavras de Nilton Bonder, na gloriosa interpretação (e seleção de textos, e adaptação para o palco) de Clarice Niskier. A judia-budista. 
Quanta simplicidade em cena, e que luxo cada pausa sua, cada meio-sorriso, cada olhar que resvalava por nós, na platéia, todos ali, de boca aberta. Ah, meu amigo Léo, valeu por ter sugerido a leitura do livro, que ainda não conclui (e creio que não chegarei a concluir jamais, mesmo quando terminar de ler). Ah, minha amiga Tutti, muito obrigada pela companhia, pela sugestão, pela cumplicidade em todas aquelas dúvidas e certezas ali expostas. Obrigada também ao meu amigo Juninho, que estava lá, depois da peça, me ajudando a digerir tantas descobertas e redescobertas – acompanhando por big dry martinis, sequíssimos e suculentos. Mas, principalmente, muitíssimo obrigada, dona Léa, por ter cutucado a minha xará e ter feito ela encarar essa bronca e encenar o livro do rabino. "Não há tradição sem traição." "Não há traição sem tradição." Putz, minha gente, é um monólogo que tem tudo pra ser denso, e é levíssimo. Cheio de revelações, mobiliza a mente e o coração da gente o tempo todo, porque mobiliza a alma da gente o tempo todo! Nunca pensei que iria gostar tanto de ouvir parábolas do Velho Testamento em um palco, ditas por uma mulher envolta em pano preto. Nunca pensei em reunir religião e biologia em cena. Nunca imaginei ver em verbo e ação aquilo que sempre intuí, que a nossa natureza é a transgressão. Como foi bom assistir esta peça e sair caminhando, pensando, querendo fazer terapia, conversando pelas ruas e ladeiras dos Jardins paulistanos. É isso aí, amei a peça! Bom, acaba-se aqui este meu momento tiete. Fiquei tri feliz com esses meus passeios acolá em Sampa. Depois conto aqui da outra peça que assisti, que também amei. Afe, dá uma pena que aqui em Fortaleza o teatro não tenha um pique similar... Quem sabe, um dia. Ah, sim, visite o site da peça.
Escrito por clara às 11h23
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Como enlouquecer um redator publicitário

Na cola do famoso texto que circulou pra caramba pela web, o “como enlouquecer um designer” (de Ghislain Roy), resolvi fazer a versão redator publicitário. Se é que ainda não foi feito, o que acho dificil. Mas, seja como for, deu vontade. Então, lá vai. Trabalho inútil Antes mesmo de apresentar ao cliente, diga ao redator publicitário que ele deve diminuir ainda mais o texto do anúncio, porque os leitores de jornais e revistas simplesmente não leem. E, se ele der uma resposta maleducada do tipo “então, pra que texto?”, responda que é para compor melhor o layout. Para terminar o papo, coloque seu iPod e saia da sala ouvindo Zezé de Camargo e Luciano. Título triturado Sente-se ao lado do redator e do diretor de arte, diante do computador, e vá tirando do título do anúncio todos os charmes que o redator colocou para deixá-lo coloquial e personalizado. Até chegar a algo simples e direto, sem sal, sem diferencial, sem porra nenhuma. Daí peça para o redator fazer um novo título, pois o cliente quer algo coloquial e personalizado. Linhas poéticas Peça textos poéticos, peça o furor de uma alma inquieta, peça delicadeza e paixão, peça toques literários, peça riqueza, drama, envolvimento e lirismo. Depois, ao ler o fruto do trabalho do pobre candidato a poeta, caia na risada acintosamente e diga que ele ficou doido, escrevendo aquele monte de bobagens piegas, com palavras repetidas, coisa mais ridícula! No amigo secreto da agência, dê de presente um livro de poemas parnasianos de Olavo Bilac para ele. Texto de grego Envie ao redator o texto criado pelo próprio cliente, dizendo que é só para enriquecer o briefing. E não aceite nada que fuja daquelas mal traçadas (mal traçadas mesmo) linhas. Não deixe ele se afastar nem um milímetro do texto do cliente. Ressalte a beleza de uma frase fajuta do texto do cliente como se fosse obra de gênio. Repita esta frase imbecil a cada nova reunião sobre a campanha. Repita esta frase até mesmo no elevador, se possível. Obvio ululante Quando estiver solicitando um trabalho para o redator, já a começar pela reunião de pauta, use e abuse de coisas óbvias, esquizofrênicas e antagônicas como: “faça um texto bem publicitário”; “precisamos vender o produto”; “o anúncio tem que ser ser direto”... e o clássico dos clássicos: “o cliente quer um texto criativo”. E, quando estiver saindo da sala, não se esqueça de citar alguma frase do Paulo Coelho. Mas atenção, para sua própria segurança, é melhor sair rápido da sala. A reação pode ser violenta. Slogan exemplar Ao analisar as propostas de slogans conceituais que o redator criou para aquele restaurantezinho xinfrim ou o posto de gasolina situado onde o diabo perdeu as botas, diga logo de cara que está tudo muito grande e cite exemplos como o “é isso aí” da coca cola ou o “do it” da nike. Insira slogans em suas falas, dizendo que quer um slogan que “desça redondo” e que o cliente “ama muito tudo isto”. Encerre animando o redator, dando aquele apoio a ele, soltando uma charmosa piscadela de olho e dizendo: “yes, you can!”
Escrito por clara às 13h59
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